Amar é…

Entender que, ao contrário do que os clichês ensinam, nem sempre os sonhos serão os mesmos. Se cada um se esforçar um pouquinho, de repente dá pra realizar os sonhos dos dois.

Amar é ter empatia e compreender que, por trás de certos comportamentos irritantes, há uma pessoa criada de uma forma completamente diferente da sua.

É ter paciência, paciência, paciência…

É somar o melhor de dois sem esquecer que nem sempre os dois estarão em sintonia. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Amar é se desfazer de preconceitos, conviver sem rótulos e acreditar numa história que só pertence a vocês – mesmo que o roteiro pareça absurdo para o resto do mundo. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Amar é ensaiar, errar, desistir, voltar atrás, insistir e acertar a cena.

É descobrir que você já não se chateia com bobagens que te chateavam no início, pois chato mesmo é querer moldar o outro ao seu modo.

Amar é perceber que a paciência lá de cima está acabando e respirar fundo…pois se a gente espremer, às vezes dá pra encontrar um pouco mais.

É compreender que cada amor se constrói de um jeito e ter a sensatez de aceitar que, por mais louco de amor que esteja, você ainda é o único responsável pela própria felicidade.

Amar é ficar ao lado mesmo quando aquele que era sol passa a ser céu nublado. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

É insistir no seu papel, ainda que alguns digam que talvez seja a sua hora de sair de cena. Porque é longe dos olhares do público que o amor entre dois prova valer a pena. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Já disse D2 certa vez: “Amar é para os fortes”.

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Eu disse sim! 


Não teve anel de diamante. Não foi numa praia paradisíaca ou numa dessas montanhas tão altas que a gente tenta tocar o sol. 

Não tinha vista bonita, mas, se eu respirasse bem forte, talvez até conseguisse sentir – lá longe – o cheiro do mar. 

Não foi em um dos nossos – tantos – paraísos preferidos. Não teve jantar romântico, pétalas de rosa, violino, discurso ensaiado. Não foi do jeito que eu sonhava. Até porque, depois de um noivado que não tinha dado certo, eu era do tipo que não sonhava com isso. Ou evitava sonhar. 

Eu estava suada. Engolia as lágrimas enquanto terminava de arrumar as malas. Pensava no visto que ia vencer e na minha necessidade em retornar ao país antes que isso acontecesse. Tinha muito pepino pra resolver. 

Avô doente. Eu não queria ir, mas não podia ficar. O meu avô é o meu pai, ele merecia que eu ficasse. À medida que o meu retorno se aproximava, mais tristinho ele ficava. Não comia direito. Reclamava que os netos estavam todos partindo pra longe dele novamente. O meu avô, que sempre foi uma pessoa super de bem com a vida, andava triste demais.

Enquanto eu chorava, ele tentava me acalmar e insistia em dançar. De vez em quando, se me vê triste ou brava com algo, ele me rodopia, na tentativa de me desarmar e me arrancar um sorriso. Já conheço esse truque dele. E me irritei. Disse que ele não imaginava como eu me sentia. Que aquilo era sério. Reclamei da sua insensibilidade e da mala que ele ainda não havia começado a fazer. Falei que ele brincava nas horas impróprias. 

Ele continuava me segurando em seus braços, dizendo que tudo iria ficar bem. Me rodopiou uma vez. “Marc, eu tenho medo de não ter a chance de ver o meu avô novamente. Ele já está velhinho e agora doente. Você me entende?”

Lágrimas. 

E ele me abraçou mais forte. Me rodopiou mais uma vez e quando eu encostei em seu peito, ele ensaiou umas palavras, pausou e depois sussurrou: “Vamos casar?” 

Eu fiquei muda. Não lembro quando foi a última vez que alguém me deixou sem reação. Talvez nunca. 

Ele continuou, como quem tenta explicar que o que ele havia acabado de falar fazia sentido. “A gente se ama e já se conhece há tanto tempo. Essa é a hora certa. Você fica o tempo que precisar com o seu avô. Eu ficarei o tempo todo aqui com você. A gente aproveita e dá a ele a felicidade de ver você se casar.” 

Eu chorei ainda mais. 

Assim, sem que eu esperasse, em poucos minutos ele reorganizou a minha vida inteirinha e me deu de presente o TEMPO. 

O tempo dele ao meu lado e o meu tempo ao lado dos meus avós. 

Me deu a chance de descobrir que sim, era possível amá-lo ainda mais. Não teve champanhe, não teve música, jantar caro ou quarto decorado. Não foi do jeito que eu havia imaginado, não foi no momento esperado. Foi numa dessas horas em que tudo que você mais quer é colo. 

Num desses momentos em que a gente se vê num beco sem saída, com o coração apertado. Que a gente procura um botão que pause a vida. 

Foi quando eu menos esperava que ele me embalou em seus braços e me mostrou que não importava o ritmo da música, eu jamais dançaria sozinha nessa vida. 

Dançamos. 

E eu disse SIM. ❤️

P.S: Ganhamos uma festinha surpresa da minha família linda, com direito a um bolo maravilhoso e tudo mais. Eles são demais! 

Sr. Jayme e Dona Áurea, meus avós lindos
 

Estamos todos muito felizes!  

🙂 

O meu tio não era louco


Foi um cara que nunca conheceu o tédio. O tipo de pessoa que transformava uma conversa informal sobre sapatos numa explicação completa sobre a anatomia do pé. Eu tinha muitas razões para o admirar. A  minha favorita era o fato de saber que ele nunca me deixaria sem uma resposta. E ele não deixava.

Tio Aroldo sofria de transtorno bipolar. E era também o cara mais inteligente que já conheci. Para quem não sabe, o transtorno bipolar é uma doença psiquiátrica caracterizada por variações do humor, crises de depressão e o surgimento de algumas manias. É como viver em uma montanha russa. Em certos dias a pessoa está depressiva, noutros ela está eufórica. Pode ser bem difícil de lidar (como no caso do meu tio), mas muitos conseguem controlar o transtorno com o acompanhamento de um psiquiatra e o uso constante de medicamentos. Infelizmente, não tem cura.

Foi o meu tio Aroldo que, mesmo sendo pão duro de carteirinha, no início da minha adolescência me levou numa loja bacanérrima para me dar a minha primeira calça “de marca”. Eu era apaixonada pelos meus jeans da Yes Brazil. No meu corpinho enxuto de adolescente, a calça caía como uma luva. Tio Aroldo tinha bom gosto e se preocupava com os pequenos detalhes.

No inicio eu não entendia muito bem quando as crises aconteciam. De repente ele falava mais do que o normal, ficava bastante eufórico e se tornava mais sincero do que já era. Falava tudo que desse na telha e muitas vezes arrumava confusões com os conhecidos da nossa cidade, que não é tão grande e nem tão pequena. O chamavam de louco. E eu, sem muita maturidade, mas cheia de amor pelo meu tio, me doía por dentro cada vez que o via daquele jeito.

A risada de alguns amigos, o pouco caso feito por conhecidos e a tristeza dos meus avós ao tentar lidar com uma doença ainda pouco conhecida machucava muito todos que o amavam. Ninguém sabia direito o que era a bipolaridade. E, até que alguém explicasse o que levava aquele homem bem vestido a usar óculos escuros à noite, enquanto gritava com desconhecidos no meio da rua, era mais fácil dizer que ele tinha, sim, um parafuso a menos. O meu tio não era louco. O meu tio era um cara normal que de vez em quando ficava doente.

Ele cortava o bife em pedaços minúsculos. Misturava farinha e um pouco de pimenta no arroz com feijão e, assim como eu, não resistia à jarra de sucos. Comia em frente à TV, tinha uma coleção de camisas da Lacoste e usava sempre o mesmo perfume – CK One. O bigode era a sua marca registrada. Ele era charmoso.

As crises vinham sempre depois de algum abalo emocional. O fim de um relacionamento, a morte de alguém especial, uma crise financeira. Não podíamos prever. O tratamento também não era tão simples. Nem sempre ele concordava em tomar os medicamentos. Sem ter como lidar com as crises mais graves, não tínhamos outra solução a não ser interná-lo.

A última crise do meu tio foi também a pior de todas. Eu tinha 19 anos e morava com uma prima no apartamento da nossa família, em Salvador. O meu pai havia sido levado pelos meus tios para a capital, numa tentativa frustrada de interná-lo numa clínica de reabilitação para usuários de drogas. Ele conseguiu fugir de volta para Porto Seguro e acabou não fazendo o tratamento. Enquanto isso, o meu tio Aroldo, que também estava conosco em Salvador, começou a apresentar alguns sinais de que não estava muito bem. Acredito que ver o meu pai naquela situação havia mexido muito com o seu emocional. Eles eram muito próximos.

Assim que percebemos que ele estava agitado, tentamos convencê-lo a tomar os remédios. Após alguns dias, a situação piorou. Certo dia, chegamos da faculdade e o porteiro do nosso prédio informou que o nosso tio estava gritando na varanda. Não bastassem os gritos, abri a porta e dei de cara com ele pelado, usando apenas o seu inseparável Ray Ban.

Ele se recusava a aceitar ajuda. Quando mencionei que o levaríamos ao médico, ele ficou ainda mais agressivo. Eu me dividia entre a tristeza em ver o meu tio naquele estado, o medo de uma tragédia ainda maior, a preocupação em resolver tudo sem precisar da ajuda da família (que já estava lidando com o meu pai em Porto Seguro), a vergonha em saber que todos no prédio comentavam sobre a situação no nosso apartamento e o medo de não ser forte o suficiente e falhar em ajudá-lo.

Liguei para um amigo e expliquei que precisávamos de uma ambulância e de pessoas preparadas para levar o meu tio à força para a clínica psiquiátrica. Nunca vou esquecer daquela cena. Eu chorava e não conseguia o encarar. Evitava o seu olhar pois não queria deixar que aquele homem que me xingava e me acusava de o estar imprisionando, apagasse a memória que eu tinha do tio doce, carinhoso e inteligente que eu tanto amava. Ele era apaixonado pelos seus sobrinhos. Para alguns de nós, ele era um pai. E para ele, éramos os filhos que ele nunca teve.

A primeira visita à clinica foi terrível. O ambiente era triste e ele não quis nos receber. Lembro de termos levado frutas e biscoitos, mas ele se recusava a falar comigo, pois acreditava que eu o havia traído ao interná-lo. Naquela noite tive problemas para dormir. A minha prima dividia a cama comigo, pois por um bom tempo desenvolvi uns ataques de pânico e não dormia sozinha.

Na segunda visita eu fiquei ainda mais assustada. O meu tio estava completamente dopado. Mal conseguia falar e eu não consegui ficar lá por muito tempo. Ele ainda estava bastante magoado comigo. Eu era uma adolescente que estava prestes a terminar a faculdade, sofrendo com os problemas do meu pai e com um tio internado em uma clínica psiquiátrica. Chorava enquanto tomava banho e ficava embaixo do chuveiro o tempo necessário para que ninguém percebesse o quanto eu estava triste.

O dia em que tio Aroldo saiu da clínica foi um dos mais felizes da minha vida. Ele já não estava mais triste comigo e fez de tudo para demonstrar a sua gratidão pelo que eu e a minha prima fizemos por ele. Comprou os móveis que eu tanto queria para o meu quarto e tentava nos agradar ao máximo. Tio Aroldo sempre tinha um comentário na ponta da língua. Certa vez, enquanto eu estudava para um dos testes ele disse: – Arittinha, nenhuma prova é mais importante do que as que você ja superou. Nenhuma nota vai ser capaz de traduzir todo o conhecimento que você tem e nenhuma escola vai te ensinar o que você realmente precisa saber. Vence na vida quem tem coragem e curiosidade.

Tio Aroldo sofreu um infarto fulminante três anos mais tarde, seis meses após o meu pai falecer. Foi um ano muito difícil para a nossa família. Os meus avós perderam dois filhos em apenas seis meses. Os meus tios perderam dois irmãos. Os meus primos perderam dois tios. Eu perdi o meu pai e também perdi o único cara que jamais se esquivava às minhas perguntas. E, apesar de tentar compreender a morte de forma racional, sinto que ele foi cedo demais e me deixou sem algumas respostas. Também acho muito injusto que muitos jamais tenham tido a chance de conversar por ao menos cinco minutinhos com o meu tio. Ele era sensacional.

É triste saber que tanta gente pouco sabe sobre o transtorno bipolar. Muitos olham o bipolar com desprezo, se envergonham (eu também me envergonhava) quando as crises são intensas ou quando ocorrem em público. Muitos se afastam, não conseguem lidar com os transtornos de humor ou com a agressividade de quem tem a doença. Eu não os julgo, pois não é fácil. Porém,nada é mais difícil do que perder aqueles que a gente ama, sejam eles loucos ou não.

Sabe aquele cara que mora ali do outro lado da rua e de vez em quando age meio estranho? Aquele que todo mundo diz ser louco? Ele podia ser o meu ou até o seu tio. Mas, tio Aroldo não era louco. Ele era o cara que tinha respostas para todas as minhas perguntas.

Fica 

  

Não fique se estiver com pressa. Não quero roubar todo o seu tempo, mas confesso ter pavor a encontros e amores cronometrados. 

Não pretenda me ouvir quando o seu pensamento estiver em outro lugar. Eu tenho a mania de falar pelos cotovelos, eu sei. Ainda assim, prefiro o seu silêncio a uma resposta vaga. 

Não concorde com as minhas ideias se a sua opinião for diferente da minha. Insista em me mostrar o seu ponto de vista e assim teremos a chance de ver os dois lados da mesma história. 

Se quiser fazer jogo, tudo bem, eu não gosto, mas não vou te proibir. Jogue as suas cartas na mesa e, se os naipes forem opostos aos meus, a gente reinventa as regras. Só não me veja como a sua adversária, me tenha como a sua cúmplice. 

Não vem com aquele papo de “eu faço o que você quiser”. Me diz o que você quer, imponha a sua vontade e, juntos, chegaremos a um consenso. Não há problema algum em não gostar do meu restaurante favorito. Eu não me importo em visitá-lo sozinha. Há tantos outros para ir com você…

Eu não quero que prometa não me fazer chorar. Me importo mais com a qualidade das gargalhadas que você pode me proporcionar. 

Eu não quero ter alguém que esteja ao meu lado para tudo. Eu quero alguém que reconheça a minha capacidade em vencer qualquer obstáculo e que me encoraje a dominar os meus maiores medos. 

Eu não quero fazer planos para o futuro. Já fiz tantos e muitos viraram apenas rabiscos em um papel qualquer. Não tenho pressa e mantenho uma grande afeição pelo presente. O futuro é incerto, eu sei. Mas se não for pedir muito, eu quero você ao meu lado mesmo nos planos não feitos. 

Fica.

Eu não sei quando aprendi a te amar

  

O que eu sei é muito pouco, é quase nada, perto dessa coisa absurda que acontece entre a gente. E isso parece querer pular de dentro de mim enquanto você dorme. E eu passo horas te observando enquanto o sono não vem…

Talvez seja o seu jeitinho manso me puxando para o seu peito, a boca que se abre em mil sorrisos diferentes cada vez que falo minhas besteiras ou a sensação da sua respiração no meu pescoço no abraço do sono em concha.

Às vezes me pergunto se você faz idéia do que me acontece cada vez que você chega perto, enquanto me chama de amor e me diz coisas lindas. E quando a sensação de que jamais nos separamos nos invade, tenho a certeza de que essa pausa durou o tempo certo para que a nossa história recomeçasse. Intensa, linda e gostosa.

Eu posso te ver em detalhes cada vez que eu fecho os olhos porque eu sei que eu preciso de você aqui, segurando a minha mão, sendo meu cúmplice, sendo o meu melhor amigo. Conheço cada pedaço do seu corpo e sei exatamente o que você pensa quando franze a testa e levanta a sobrancelha. Ou quando me olha meio torto sempre que discorda das minhas ideias absurdas.

E eu adoro ouvir o barulho que você faz quando desliga o chuveiro, porque sei que o seu cheiro vai inundar de novo o nosso quarto.

Eu gosto tanto de dormir ao seu lado e acordar tendo a sensação de que você jamais vai me achar feia, ainda que eu esteja com a cara amassada ou o cabelo bagunçado. Você vai me chamar de “minha linda”, você nunca esquece. 

De repente sou eu acompanhando seus gestos: a precisão da sua mão enquanto faz o nó da gravata, ou quando rabisca o meu caderno na tentativa de me ensinar matemática. E eu adoro tanto o seu toque e o seu zelo comigo que todo dia eu só quero chegar mais perto porque eu sei que você vai me sorrir de novo. Um sorriso que me desarma e logo depois me arma para que eu corra pro seu abraço.

Estar com você sou eu pensando em família, em filhos, cachorro e jantar às sete. Sou eu cortando temperos em miúdos pedaços e aprendendo a fazer tudo o que você gosta. E eu não era assim. Não era até você me transformar no seu amor.

Eu só não sei em que exato momento você fez isso. Se foi quando me beijou, quando me estendeu a mão ou enquanto você dormia.   

 

Sobre o amor e o que ainda não aprendi com ele

 
Não sei você, mas sou do tipo que ama demais. Não sei me controlar, fingir que não tô afim, entrar no jogo do “ficar na minha para que o outro sinta a minha falta”. Eu sou o exemplo imperfeito de mulher que segue conselhos. E que quando os segue, confunde as instruções no meio do caminho, como quem põe três colheres de sal em um bolo que deveria levar açúcar. 

Sou também aquele tipo que já quebrou a cara incontáveis vezes. E se sofrer de amor deixasse cicatrizes visíveis… Ah, você veria o quanto envelheci!

O que aprendi amando demais é que nada sei sobre o amor além da certeza de que só vale a pena se te trouxer sossego. Em certos tipos de relacionamentos, a gente perde tempo demais tentando mudar o outro, gastamos energia demais tentando fazer com que o outro nos ame, numa guerra diária para fazer o relacionamento dar certo. A gente se anula pelo outro e ficamos cegos ao ponto de perdermos as melhores características da nossa personalidade. 

Eu já fui muitas mulheres em uma só. Alguns amores me tiraram o brilho, o meu humor, a minha energia, a minha vontade de escrever, a minha espontaneidade. Já fui imatura ao ponto de levar adiante relacionamentos fracassados por medo de assumir para mim mesma que aquele conto de fadas só existia na minha cabeça. Ja aceitei traições por acreditar que erros acontecem e que todos devem ter uma segunda chance. E não me dei conta de que estava traindo a mim mesma.

Dei ao outro uma segunda chance e a mim a infelicidade de conviver com a dúvida. Com o tempo, aprendi que dar uma segunda chance muitas vezes é como comprar um item caro no cartão de crédito estando com a conta negativa. Você quer tanto ter aquilo, que não se importa se vai conseguir pagá-lo. Em outras palavras, dar uma segunda chance é parcelar o seu sofrimento. É adiar a sua chance de sofrer hoje e ser feliz amanhã. É não ter coragem de encarar a verdade e de aceitar que só o amor não é suficiente para fazer com que alguém te queira. 

Demora um bom tempo, mas a gente aprende que quem te quer não precisa de uma segunda chance. Quem te merece vai estar ali, permitindo que você seja quem você é, sem mudar nenhum traço da sua personalidade. 

Demora um bom tempo, mas a gente aprende que nem todo amor foi feito para te fazer feliz. Alguns foram feitos para ajudar a crescer – ainda que você não os veja dessa forma. E com esses a gente aprende muito. Aprendemos inclusive, que nada sabemos sobre amar. 

Como se acostumar?

Eu já deveria ter me acostumado com ela. Me lembro que nos conhecemos quando eu ainda era um bebê e estava mudando de cidade, mas ela se aproximou realmente quando eu tinha 5 anos e levou aquela que eu mais amava. Desde então virou quase uma companheira. Daquelas que a gente briga, esperneia, pede para que desapareça, mas ela sempre volta. Eu realmente já deveria ter me acostumado com ela, mas a tal da Saudade é tão egoista e individualista que não se preocupa com o que a gente pensa. Ela fica ali, machucando, horas com maior intensidade, noutras bem de levinho.
E quando ela chega o coração fica apertado, os pensamentos voam longe, a gente entra em combate e agumas vezes precisamos bater as mãos no tatame e mostrar que desistimos. Daí ela se aquieta e de mansinho vai indo embora. Mas a gente sabe que logo seremos chamados novamente para a luta.
O curioso é que mesmo sabendo o quanto dói, por vezes tomamos atitudes que nos levam de encontro à Saudade. Por que estar longe da família, dos amigos, daqueles que amamos, se dói tanto? Em outros momentos não temos escolha. Ela arranca de nós os nossos heróis, aqueles que acreditávamos serem imortais. Ela leva os bons…E o coração despedaçado se pergunta: por quê?
E eu posso não ter aprendido a me acostumar com ela, mas sei reconhecer o quanto cresço a cada reencontro que nós temos. Eu me tornei mais forte e todos os dias aprendo um golpe novo para evitar a desistência. Eu tenho me esquivado do jeito que posso, mesmo sabendo que posso ser pega de surpresa e perder por nocaute. Mas todo grande lutador cuida das feridas e volta inteiro pro ringue.
E é assim que tenho feito dia após dia.

Aritta Valiense