Vergonha é não tentar ser feliz

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Não lembro ao certo se era uma noite de sábado ou de domingo. Mas quando penso em momentos que marcaram a minha infância e adolescência, esse é um dos que rapidamente me vem à memória.

Tenho uma irmã onze anos mais nova. Quando ela tinha por volta de uns 3, 4 anos, eu estava no auge da minha aborrecência. Sabe quando você tenta provar para todos e até pra sí mesmo que é muito mais maduro do que realmente é? Essa era eu. E na cidade onde eu nasci e passei boa parte da minha vida – Porto Seguro -, havia um trenzinho enfeitado que rodava com as crianças pelas ruas mais movimentadas, cheio de palhaços e personagens de histórias infantis. A música que vinha do tal trem podia ser ouvida a quarteirões. Pois ai os pais já sabiam que ele estava passando e aguardavam com os filhos na porta de casa.

Nessa noite eu fui encarregada de levar a minha irmã noTrenzinho da Alegria. A minha primeira reação foi deixar claro que eu não queria ir sentada na frente, ao contrário da minha irmãzinha, que insistia em ficar bem na primeira fileira de bancos, onde todos iriam nos ver. Eu queria de qualquer forma me esconder no meio dos outros passageiros, assim os garotos da minha idade não iriam me enxergar e rir da minha situação, rodeada de palhaços cantando músicas da Xuxa. Coisas de adolescente…

Nunca esqueci esta cena. Enquanto eu dizia que não iria na frente, meu pai me pegou pelo braço e me disse: -Aritta, o que dá vergonha é roubar e matar. E não fazer alguém feliz quando você pode fazer isto. Se ela quer ir na frente, vá na frente.

Eu fui.

Eu estou contando essa história porque há alguns dias, conversando com uma conhecida, ela me disse que eu estava desperdiçando o meu tempo, vivendo no Canadá e trabalhando numa cafeteria, enquanto eu poderia ter um bom trabalho no Brasil. Seguir a minha carreira de jornalista. Eu respondi que realmente ela tinha razão. Eu gostaria muito de estar trabalhando na minha área, conseguir um emprego fixo em jornalismo e viver do que mais amo: escrever, produzir. Mas completei: – Não estou perdendo tempo, pois eu precisei mudar de país para aprender algo que meu pai tentou me ensinar enquanto ainda estava vivo, há dez anos: Vergonha é roubar e matar. E não fazer alguém (ou você mesmo) feliz.

E pode ser que eu arrume as malas e volte daqui a uns dias, pode ser que não. Mas eu jamais vou me envergonhar do que fiz e do que estou fazendo. Porque eu estou tentando ser feliz.

Fica a dica.